Última revisão: 23 de outubro de 2026.
Uma caixa automática de cripto parece um multibanco, mas não está ligada à sua conta bancária: serve para trocar numerário por criptomoedas e, em alguns modelos, criptomoedas por numerário. A partir de 28 de outubro de 2026, qualquer operação numa destas máquinas em Espanha exige identificação e verificação da identidade, seja qual for o montante. Explicamos de onde vêm, como funcionam, que riscos têm e o que convém guardar se comprar numa delas.
De um café em Vancouver a milhares de máquinas
A primeira caixa automática de bitcoin abriu a 29 de outubro de 2013 num café Waves Coffee House no centro de Vancouver, no Canadá. Foi instalada pela empresa norte-americana Robocoin e pela canadiana Bitcoiniacs. Segundo a reportagem da CBC News desse dia, o cliente tinha de digitalizar a palma da mão e podia trocar até 3000 dólares por dia nos dois sentidos: de numerário para bitcoin e de bitcoin para numerário.
Desde então, o setor cresceu muito e de forma muito desigual. O diretório Coin ATM Radar, que reúne as localizações conhecidas de caixas automáticas de cripto, listava a 23 de outubro de 2026 cerca de 27 000 localizações em todo o mundo. Mais de 70 % estavam nos Estados Unidos (19 515), seguidos do Canadá (3550) e da Austrália (1699). Na Europa, Espanha surgia com 250 localizações, apenas atrás da Polónia (327).
Estes números são um retrato do diretório, não um recenseamento oficial, e mudam todas as semanas. Em alguns países o número caiu por decisão do supervisor. No Reino Unido, por exemplo, a Financial Conduct Authority (FCA) indica que as caixas anunciadas no Coin ATM Radar passaram de mais de 80 em 2022 para nenhuma em 2024.
Como funciona uma caixa automática de cripto
Unidirecionais e bidirecionais
- Unidirecionais: só permitem comprar. Introduz numerário e recebe criptomoedas.
- Bidirecionais: permitem comprar e também vender, ou seja, enviar criptomoedas para a máquina e levantar numerário.
Alguns modelos aceitam também cartão, e muitos suportam várias criptomoedas além do bitcoin.
A compra
- Escolhe a criptomoeda e a operação no ecrã.
- Identifica-se. Em Espanha, isto é obrigatório em todas as operações a partir de 28 de outubro de 2026.
- Mostra ao leitor da máquina o código QR do endereço da sua carteira, normalmente no telemóvel.
- Introduz as notas. A máquina mostra a taxa de câmbio aplicada e o montante que vai receber.
- Confirma, e a máquina envia a transação para a blockchain. No fim, entrega-lhe um recibo em papel ou por e-mail.
A venda
Numa máquina bidirecional, o caminho é o inverso. A máquina mostra um código QR com um endereço do operador, envia as criptomoedas a partir da sua carteira e, quando a transação tiver as confirmações exigidas pelo operador, a máquina entrega-lhe o numerário. Alguns operadores dão um código para levantar o dinheiro mais tarde.
Carteiras e códigos QR
O código QR representa apenas um endereço. Quem controla a carteira desse endereço controla os fundos. Por isso é tão importante que o QR seja da sua carteira e não de alguém que lho enviou por mensagem.
Comissões
As caixas automáticas de cripto cobram pela comodidade e pelo manuseamento de numerário. O custo vem normalmente incluído na taxa de câmbio, como uma margem sobre a cotação de mercado, e por vezes há ainda uma comissão fixa e o custo da rede. Verifique no ecrã o montante final que vai receber antes de confirmar e compare-o com o de uma corretora autorizada.
Utilizações legítimas e riscos
Muitas pessoas usam estas máquinas para comprar pequenas quantias em numerário sem abrir conta numa corretora, ou para converter criptomoedas em notas. Mas essa mesma rapidez tornou-as num canal habitual de burlas.
Em setembro de 2024, a Federal Trade Commission norte-americana (FTC) publicou uma análise das queixas de consumidores: as perdas por fraude através de caixas automáticas de bitcoin multiplicaram-se quase por dez entre 2020 e 2023, ultrapassando 110 milhões de dólares. As pessoas com 60 ou mais anos tinham mais de três vezes mais probabilidade do que os adultos mais jovens de comunicar perdas. O padrão repete-se: uma chamada ou mensagem urgente de alguém que se faz passar pelo seu banco, pela polícia ou pelo apoio técnico. Diz-lhe que o seu dinheiro está em perigo, pede-lhe que o levante em numerário e que o deposite numa máquina, digitalizando um código QR que lhe envia. Esse QR é a carteira do burlão.
No Reino Unido, a FCA considera ilegais todas as caixas automáticas de cripto em funcionamento no país, porque nenhuma empresa registada está autorizada a prestar esse serviço, e avisa que quem as usa pode estar a entregar o seu dinheiro a criminosos. Em 2025, um tribunal condenou um homem a quatro anos de prisão por explorar uma rede destas máquinas sem registo.
Lembre-se: nenhum banco, organismo público ou polícia lhe pedirá alguma vez que deposite dinheiro numa caixa automática de cripto.
O que muda em Espanha com o Real Decreto 813/2026
O Real Decreto 813/2026, de 7 de outubro, publicado no Boletim Oficial do Estado (BOE) a 8 de outubro, altera, entre outras normas, o regulamento da lei espanhola 10/2010 de prevenção do branqueamento de capitais. O novo artigo 4.º, n.º 1, acrescenta as operações «realizadas em caixas automáticas de criptoativos» aos casos em que a entidade obrigada deve identificar e verificar a identidade em qualquer caso. Até agora, a regra geral para operações ocasionais começava nos 1000 euros. Para estas máquinas deixa de haver montante mínimo.
- Entrada em vigor: vinte dias após a publicação, nos termos da disposição final quarta, ou seja, a 28 de outubro de 2026.
- Prazo de 18 meses: a disposição transitória terceira concede dezoito meses a contar da publicação, até abril de 2028, para duas alterações técnicas. Uma é a identificação com a versão digital do documento de identidade espanhol (artigo 6.º, n.º 1, alínea a). A outra é a conservação da informação obtida por meios de identificação eletrónica (artigo 28.º). Este prazo não adia a obrigação de identificação nas caixas automáticas de cripto.
- Conservação: o operador deve conservar a documentação de diligência devida durante dez anos após a operação.
É uma norma de prevenção do branqueamento, não fiscal: não cria nenhum imposto nem altera a tributação dos seus criptoativos.
O contexto europeu: MiCA e AMLR
Esta reforma insere-se num quadro europeu mais amplo. Com o Regulamento MiCA, quem troca criptoativos por dinheiro a título profissional na UE tem de estar autorizado como prestador de serviços de criptoativos; pode confirmá-lo no registo da ESMA. E a partir de 10 de julho de 2027 aplica-se o novo regulamento europeu contra o branqueamento, que proíbe as contas anónimas e reforça a diligência devida destes prestadores. Explicamo-lo no nosso artigo sobre o AMLR e os criptoativos.
Caixas automáticas de cripto e origem dos fundos
Se comprou criptomoedas numa caixa automática e mais tarde as vende numa corretora ou transfere o dinheiro para o seu banco, é provável que lhe perguntem de onde vem. Com numerário pelo meio, a entidade vai querer ver duas coisas: de onde veio esse numerário e que a compra se realizou de facto.
Convém guardar:
- O recibo da máquina, com a data, o montante, a criptomoeda e o endereço de destino.
- O identificador da transação (TxID), que permite localizá-la na blockchain.
- A origem do numerário: o extrato do levantamento no seu banco, um recibo de vencimento, a venda de um bem ou outro comprovativo.
- A ligação à sua carteira: que o endereço de destino é seu e o percurso posterior desses fundos.
Com a nova norma, o operador da máquina também terá registo da sua identidade, o que facilita reconstruir o percurso completo. Veja mais no nosso guia para comprovar a origem dos fundos cripto perante o banco.
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Fontes
- Real Decreto 813/2026, de 7 de outubro (BOE-A-2026-20915, em espanhol): artigo quinto (artigos 4.1, 6.1.a e 28 do regulamento da lei 10/2010), disposição transitória terceira e disposição final quarta.
- Coin ATM Radar, caixas automáticas por país (consultado a 23/10/2026).
- CBC News, «World's first bitcoin ATM opens in Vancouver», 29/10/2013
- FTC, «Bitcoin ATMs: A payment portal for scammers», setembro de 2024
- FCA, «Warning on illegal crypto ATMs operating in the UK»
- FCA, condenação por explorar uma rede ilegal de caixas automáticas de cripto (28/02/2025)
- Regulamento (UE) 2023/1114 (MiCA), EUR-Lex
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