Uma pessoa encapuzada diante de um portátil, com duas grandes moedas douradas de ether e bitcoin ao fundo sobre um fundo preto

edwinchuen / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Ataque à Binance: o que significa para a origem dos seus fundos cripto

· Última revisão 02/11/2026

Última revisão: 2 de novembro de 2026. Os números podem mudar quando a Binance publicar o seu relatório técnico.

O ataque à Binance de 29 de outubro de 2026 é o maior roubo de criptomoedas alguma vez registado: a própria corretora estima o impacto em cerca de 6,3 mil milhões de dólares, mais de quatro vezes o que foi roubado à Bybit em 2025. Para lá dos clientes da Binance, há uma pergunta que afeta muito mais pessoas: o que acontece se chegarem à sua carteira criptomoedas que passaram pelos endereços do atacante?

O que aconteceu na Binance?

Segundo a TRM Labs, os fundos começaram a sair das hot wallets da Binance (as carteiras ligadas à internet que a corretora usa para pagar os levantamentos) por volta das 20:05 de Lisboa de quinta-feira, 29 de outubro, em dez blockchains diferentes, e a maior parte da operação durou cerca de 20 minutos. No comunicado de 30 de outubro, a Binance explicou que a investigação inicial aponta para o comprometimento do portátil de um engenheiro de DevOps, o que permitiu ao atacante aceder a um contentor de serviço e submeter ordens de levantamento não autorizadas. A empresa acrescentou que não encontrou provas de fuga de qualquer chave privada e que publicará um relatório técnico (post-mortem) quando terminar a investigação. A 2 de novembro, ainda não o tinha publicado.

O seu codiretor executivo, Richard Teng, precisou depois que a investigação descobriu pontos de entrada adicionais. Segundo a Chainalysis, o atacante financiou uma das suas carteiras através do misturador Tornado Cash.

A Binance suspendeu os levantamentos por precaução, enquanto os depósitos continuavam a funcionar. A 1 de novembro, a partir das 6:00 de Lisboa, começou a reabri-los por fases, começando pela bitcoin, pela ether e pelas principais stablecoins. Entre as 6:00 e as 15:30 de Lisboa desse dia, segundo a Binance, foram processados cerca de 4,65 mil milhões de dólares em levantamentos e 1,01 mil milhões em depósitos, uma saída líquida de cerca de 3,64 mil milhões (2,1 % dos ativos sob custódia).

Os números: o que é facto e o que é estimativa

Todos os montantes são estimativas em dólares e cada fonte conta de forma diferente, pelo que não convém somá-los nem considerá-los definitivos.

FonteMontante roubado (estimativa)Montante congelado
Binance (30 de outubro)Cerca de 6,3 mil milhões de dólaresCerca de 3 mil milhões
TRM Labs (30 de outubro)Cerca de 6,36 mil milhõesCerca de 2,7 mil milhões
ChainalysisCerca de 6,4 mil milhõesCerca de 2,8 mil milhões
Elliptic (1 de novembro)Cerca de 6,43 mil milhõesCerca de 2,85 mil milhões, 94 % em stablecoins

A 31 de outubro, o FBI atribuiu oficialmente o roubo à Coreia do Norte, mais concretamente à atividade que designa por TraderTraitor, um grupo ligado ao Lazarus a que também atribuiu o roubo à Bybit. A TRM Labs e a Chainalysis já tinham chegado à mesma conclusão: a Chainalysis viu os fundos da Binance misturarem-se em tempo real com os roubados à Bitget em setembro.

A Binance garante que assumirá todas as perdas com o seu fundo de emergência SAFU e com fundos próprios, que os saldos dos utilizadores não serão afetados e que, a 1 de novembro, tinha reposto cerca de 95 % dos ativos roubados. Os restantes 5 % são tokens menos líquidos que continua a comprar no mercado.

O que significa a Tether e a Circle «congelarem» fundos?

As stablecoins como a USDT ou a USDC têm um emitente central que pode bloquear os endereços que as detêm. Após o ataque, o diretor executivo da Tether, Paolo Ardoino, confirmou o congelamento de mais de 1,567 mil milhões de USDT. A Circle disse à CNBC a 2 de novembro que tinha congelado mais de 1,1 mil milhões de dólares em USDC, em coordenação com as autoridades. A Ripple, a World Liberty Financial (emitente da USD1) e o Conselho de Segurança da Arbitrum também bloquearam fundos.

Há duas ressalvas importantes:

  • Congelar não é devolver. Os tokens ficam imobilizados, mas a devolução exige provar quem é o titular e a base legal para o fazer, lembraram advogados ao CoinDesk.
  • A bitcoin e a ether não podem ser congeladas na rede. Segundo a Elliptic, cerca de 3,25 mil milhões de dólares do saque, incluindo 18 327 BTC, estão em ativos que nenhum emitente pode bloquear.

O verdadeiro risco para si: receber fundos «contaminados»

O roubo não termina com o ataque. Os fundos são branqueados ao passarem por milhares de endereços, pontes entre blockchains e serviços de troca instantânea. O FBI publicou uma lista de 608 endereços de Ethereum, 19 de Bitcoin e um de Solana, e pediu a corretoras, serviços DeFi, empresas de análise e outros prestadores que bloqueiem as transações com esses endereços ou deles derivadas. O diretor executivo da Chainalysis, Jonathan Levin, prevê que os endereços utilizados passem a ser «dezenas de milhares» nas próximas semanas.

As corretoras e muitos bancos usam ferramentas de análise que atribuem a cada endereço um nível de risco consoante a sua exposição, direta ou indireta, a atividades ilícitas. Se receber criptomoedas que, alguns saltos antes, saíram de um endereço ligado ao ataque, o seu prestador pode:

  • reter ou recusar o depósito;
  • pedir-lhe documentação sobre a origem desses fundos;
  • limitar ou encerrar a sua conta nos casos mais graves.

Não é preciso ter feito nada de errado. O risco é maior nas operações entre particulares (P2P), nas compras a desconhecidos abaixo da cotação de mercado e nos serviços de troca que não pedem identificação, porque são os canais que costumam usar quem branqueia fundos roubados. Cada entidade aplica os seus próprios critérios e limiares.

Porque é agora mais importante guardar comprovativos

Perante um alerta de risco, o que melhor o protege é conseguir reconstruir de onde vêm as suas criptomoedas: as regras contra o branqueamento obrigam corretoras e bancos a conhecer a origem dos fundos dos seus clientes. Guarde:

  1. Extratos e histórico de operações de cada corretora, com data, montante e comissões. Descarregue-os já.
  2. Os identificadores de transação (TxID) dos movimentos entre as suas contas e as suas carteiras próprias.
  3. A prova do dinheiro de partida: transferências bancárias, recibos de vencimento, faturas, contratos ou a venda de outros ativos.
  4. Uma análise dos seus endereços antes de transferir montantes relevantes para uma corretora ou um banco.

No nosso guia sobre como comprovar ao banco a origem dos fundos cripto encontrará uma lista mais detalhada de documentos.

O que muda ao usar um prestador autorizado ao abrigo do MiCA?

Segundo o registo provisório da ESMA, consultado a 2 de novembro de 2026 (última atualização a 29 de outubro), a Binance não consta dos prestadores de serviços de criptoativos autorizados na União Europeia ao abrigo do Regulamento MiCA. Um prestador autorizado não está imune a ataques, mas o MiCA impõe-lhe obrigações que protegem o cliente:

  • manter os criptoativos dos clientes separados dos seus, também juridicamente, para que os seus credores não os possam reclamar (artigo 75.º, n.º 7);
  • responder perante o cliente pela perda dos seus criptoativos em resultado de um incidente que lhe seja imputável, com um limite: o valor de mercado do ativo no momento da perda (artigo 75.º, n.º 8);
  • ter procedimentos de reclamação e estar sob a supervisão de uma autoridade nacional, como a CMVM em Portugal ou a CNMV em Espanha.

A diferença é relevante: na Binance, a cobertura depende de uma decisão da empresa, enquanto um prestador autorizado tem uma obrigação legal exigível perante um supervisor. Pode verificar se a sua plataforma está autorizada com o nosso guia sobre o MiCA e as corretoras autorizadas.

Passos práticos na Europa e na América Latina

A Binance tem muitos utilizadores em países como a Argentina ou a Venezuela, segundo a BBC. Estes passos servem dos dois lados do Atlântico:

  1. Se tem saldo na Binance, siga apenas os canais oficiais. Depois de um ataque, multiplicam-se as mensagens falsas que prometem «recuperar fundos» ou pedem as suas chaves. Ninguém legítimo lhe pedirá a frase de recuperação.
  2. Antes de aceitar um pagamento em cripto de alguém que não conhece, verifique o endereço de origem. Desconfie de ofertas abaixo da cotação de mercado.
  3. Nas operações P2P, guarde a identidade da contraparte, a conversa e o comprovativo bancário.
  4. Não tente «limpar» fundos duvidosos com misturadores ou cadeias de trocas. Agrava o risco e pode ser visto como um indício de branqueamento.
  5. Se uma corretora ou um banco lhe pedir informação, responda com documentos ordenados por data. Peça que lhe indiquem que transação gerou o alerta.
  6. Se foi vítima de uma burla relacionada com o ataque, apresente queixa à polícia do seu país e guarde todas as provas.

Precisa de justificar a origem dos seus fundos? A FundsOrigin analisa o endereço público da sua carteira e gera um relatório em PDF que pode juntar à sua documentação; a decisão de o aceitar cabe sempre à entidade. Analise a sua carteira e veja as opções disponíveis →

Fontes

Este conteúdo é informativo e não constitui aconselhamento jurídico, fiscal ou de investimento. Resume informação pública sobre um incidente que continua a ser investigado; os números podem mudar. Consulte um profissional sobre o seu caso.

Perguntas frequentes

Perdi dinheiro se tinha saldo na Binance?
A Binance garante que assumirá todas as perdas e que, a 1 de novembro, tinha reposto cerca de 95 % do que foi roubado. É um compromisso da empresa, não uma garantia legal: os criptoativos não estão cobertos pelos fundos de garantia de depósitos.
A minha conta pode ser bloqueada se receber cripto ligadas ao ataque?
É possível. O FBI pediu aos prestadores que bloqueiem as transações com os endereços do atacante ou deles derivadas. Cada corretora ou banco decide segundo a sua análise de risco e pode pedir-lhe que justifique a origem dos fundos.
O que acontece às USDT e USDC congeladas?
Continuam bloqueadas nos endereços do atacante. Congelar não é devolver: os emitentes podem anular esses tokens e reemiti-los ao legítimo titular, mas antes é preciso provar a propriedade e a base legal.
Um relatório de análise da carteira é útil?
Pode ajudá-lo a documentar o histórico dos seus endereços e a detetar exposição a fundos de risco antes de mover as suas criptomoedas. A decisão de o aceitar cabe sempre à corretora ou ao banco.